O Discurso do Método

Aqui está um resumo do que eu entendi sobre o livro O Discurso do Método, de René Descartes. Sugiro que todos leiam, é um livro que apesar de ser pequeno possui muito conhecimento e boas análises.

O livro foi escrito em francês e propõe um modelo que lembra as ciências exatas para se raciocinar e evitar que haja dúvidas, pois para Descartes a dúvida é uma falha que deve ser corrigida o quanto antes. Ao longo do livro o autor propõe modelos para um bom raciocínio e para uma boa vivência, além de provar Penso, logo existo e provar tanto a existência de Deus quanto a perfeição Dele.

O texto se divide em seis partes: a primeira fala um pouco sobre a ciência; na segunda ele apresenta os princípios para constituir uma boa vida; na terceira parte o autor justifica os princípios; a quarta parte é reservada à prova da existência de Deus e da alma do homem; a penúltima parte é reservada à aplicação do método à ciência (medicina e física) e faz considerações finais sobre a diferença entre a alma humana e a alma dos outros animais; na sexta parte, Descartes cita as causas que o levaram a escrever o livro e porque essas instruções são essenciais para o progresso do conhecimento; no entanto não me atrelarei às partes.

Quatro princípios de Descartes para poder constituir uma boa vida.

1) Nunca aceitar alguma coisa como verdadeira sem antes ter bastante ou total conhecimento acerca do assunto. Evitar conclusões precipitadas e pré-julgamentos.

2) Quando tiver algum problema, divida este no maior número de partes possíveis a fim de facilitar o processo de resolução desse grande problema.

3) Quando for adquirir conhecimento sobre algo, fazer isso de forma crescente e racional, começando pelo que é mais básico e simples, para assim formar bases sólidas para as estruturas maiores, os conhecimentos mais complexos e aprofundados.

4) Ser amplo e claro em todas as descobertas.

As três leis para a moral provisória.

1) Sempre viver visando a conformidade do lugar que você vive e das pessoas com quem você convive. Ou seja, mesmo que tenha várias ideias geniais nas mais variadas sociedades, há de se dar mais atenção àquela sociedade com quem você passará maior parte da sua vida ou àquela que você esteja vivendo. Se você vai para a China, acostume-se aos costumes chineses e tente fazer parte da sociedade como um chinês. Caso viva na França, faça o mesmo, mas do modo francês. Tendo vivido nos dois lugares, ou mais, há de se unir o melhor de ambos e agir da melhor forma em todos os lugares, em outras palavras, é como pegar a tecnologia francesa e a arte milenar chinesa num único pensamento, sem haver exageros. Outro ponto, é o de moderar e equilibrar todo o conhecimento adquirido, sem dar valor aos extremos, porque o extremo não escolhido pode ser mais correto que o que fora escolhido, assim, há de se ter equilíbrio entre os dois para evitar excessos.

2) Agir racionalmente e seriamente, não se deixar levar por dúvidas e pensamentos fracos, mesmo que tenha de se analisar todos para tomar uma decisão concreta. Exemplo de estar perdido na floresta, é melhor focar numa direção qualquer do que ficar andando em círculos se deixando levar pelos delírios do pensamento.

3) É uma lei própria de Descartes, ele crê que o melhor é focar naquilo que gosta e que te faz bem. Mas, mesmo assim, deve-se focar naquilo que há de mais belo, o conhecimento, como forma de “agradecimento” pela luz dada por Deus para que cada um pudesse ter a capacidade de julgar o verdadeiro e o falso da própria maneira, sem se deixar levar pelas ideias e opiniões alheias.

Descartes valoriza os erros, pois eles servem para nos ensinar a vida. Por mais inútil que o erro possa parecer, há nele sempre uma forma de aprender, mesmo que seja que aquilo é errado.

Penso, logo existo (cogito ergo sum)

Penso, logo existo primeiro princípio da filosofia cartesiana. Descartes obtém isso a partir da tentativa de fazer com que todo o pensamento e conhecimento que ele tem seja falso. Ao fazer isso, concluiu que se assim fosse, o próprio Descartes também não existiria, nem seus pensamentos. Assim, para que o pensamento dele seja uma verdade, ele precisa existir, portanto, penso, logo existo. E foi algo tão verdadeiro e real que ninguém poderia discordar disso. Por outro lado, por mais que existisse tudo ao redor dele, mas o pensamento dele não existisse, então Descartes não existiria, pois, sem pensar, você não existe, assim o pensador concluiu que a essência e a natureza dele são pensar, e para existir não é preciso de um corpo ou algo físico. Assim, se o pensamento de Descartes está no livro, ele está vivo.

Tudo que temos de forma clara e distinta em nossa mente é verdadeiro, no entanto, há a dificuldade de cada um e conceber alguma coisa de forma distinta.

A perfeição:

Descartes diz que algo perfeito não pode ser criado por algo que não é perfeito, ou seja, como você pode saber que algo é imperfeito se não há um padrão de perfeição? Eu posso crer que eu sou perfeito do modo que eu seja, afinal não há um padrão de perfeição universal.

No entanto, há sim o padrão de perfeição na mente de cada um e simplesmente adquirido, então é de se concluir que algo perfeito, Deus, colocou o padrão de perfeição na cabeça de cada um.

Descartes ainda defende que Deus é perfeito, pois não possui imperfeições que o próprio Descartes enxerga em si, como a dúvida, a inconstância e tristeza. As imperfeições são causadas pelas opiniões dos outros, uma vez que Deus não precisa da opinião de ninguém e é onisciente, onipresente, infinito e imutável então Deus não possui problemas como dúvida, inconstância ou tristeza, dessa forma, Deus é perfeito. Pela perfeição da razão ser diferente da perfeição corporal, Descartes conclui que Deus não pode ser físico, ele apenas existe graças ao pensamento de cada um e na forma que cada um pensa, sendo assim, não há um Deus Universal, mas cada um tem sua imagem de Deus.

Na parte 5, Descartes tenta convencer os que não creem em Deus a partir da comparação entre o homem e o animal. Durante muitas páginas o filósofo fala sobre coração, pulmão, sangue, movimento do sangue e digestão para provar que “fisicamente” somos iguais aos outros mamíferos, uma vez que a alma não tem nenhuma razão fisiológica.

Mesmo que “fisicamente” sejamos iguais aos outros mamíferos, apenas nós temos liberdade de movimentos e de pensamentos extraordinários, tão extraordinários que nem a mais bela máquina feita pelo homem conseguiria realizá-los, essa liberdade de pensamentos dá-se pela alma de cada um, alma que apenas nós temos, mesmo sendo “fisicamente” iguais aos outros animais. Essa alma foi colocada por Deus em cada um, de modo que esta alma estivesse totalmente sincronizada e ligada aos movimentos, sentidos, desejos, vícios, virtudes, etc, no entanto, nossa alma é totalmente independente de nosso corpo, pois “surgiu” de forma diferenciada e também porque é imortal, como nosso pensamento. Penso, logo existo.

Saúde: o fundamento de todos os bens da vida

Mesmo o espírito necessita de saúde, pois este necessita da vida e da disposição dos órgãos. E a melhor forma de tornar a humanidade mais sábia é por meio do conhecimento de todos sobre a medicina. Descartes, fazendo sua parte, procura divulgar ao mundo todos os conhecimentos que ele adquiriu ao estudar medicina, uma das provas disso é que, na 5ª parte deste livro, ele descreve o processo de circulação e respiração dos mamíferos.

Utilizando a medicina como metáfora, Descartes descreve como deve ser a sua busca por conhecimento e experiência, uma vez que nosso conhecimento sobre medicina (como curar doenças ou se prevenir) é pouco comparado ao que podemos descobrir.

A partir dessa comparação, Descartes aventura-se a citar e explicar quatros passos para a busca de conhecimento:

1-) Encontrar os princípios e as primeiras causas de tudo que existe ou possa existir considerando apenas a existência de Deus, o criador de todas essas coisas, e algumas sementes de verdade que estão naturalmente em nossas almas.

2-) Depois, o autor encontrou as coisas mais gerais a partir desses princípios e encontrou o céu, os astros, os planetas, a água, a terra, o ar, o fogo, os minerais e outras coisas consideradas as mais simples e fáceis de conhecer.

3-) Por penúltimo, o autor busca aprofundar o conhecimento das coisas mais particulares, mas como são muitas o autor não acredita que possa ser possível ter conhecimento sobre todas pois cada coisa possui muitas outras coisas dentro dela com muitas outras particularidades para se conhecer. Consequentemente, analisando tudo que viu, concorda que não há nada que não poderia explicar de forma cômoda pelos princípios que havia encontrado. No entanto, ao saber do poder da natureza e levar por pressuposto que tudo pode ser explicado por princípios, Descartes desacredita nas particularidades.

4-) Por fim, é proposto pelo autor que continue a buscar experiência para análise desses objetos/coisas

Sendo que na busca por conhecimento tanto as quatros leis acima quanto os quatro princípios para se ter uma vida boa não devem ser abandonados nunca.

Espalhar o conhecimento, para Descartes, significa querer o bem para o mundo sem ter intenção em beneficiar-se disso, no entanto há de se prezar uma profunda análise acerca de todo esse conhecimento para que nada seja privado dos leitores e também para evitar ocorridos como o de Galileu, quando foi censurado pelo Estado e pela religião por divulgar suas ideias, portanto, o filósofo francês sugere que todos devem esperar o momento certo para divulgar as informações, sem deixar que as pessoas sejam privadas de algo durante esse tempo. Ainda assim, há de se arriscar como em batalhas, para saber os pontos fortes e os pontos fracos de suas capacidades e de suas liberdades.

[Essa parte é contraditória, pois o autor quer que haja controle sobre a informação e também a divulgação total, mas quer quer haja divulgação total para que você saiba a opinião das pessoas e até onde você pode ir com suas pesquisas. Lembrando que à época de Descartes sofria-se muito mais com a censura religiosa e censura do conhecimento do que nos dias atuais. Vide a vida de Galileu Galilei.]

Sexta parte

Descartes, na última parte do livro, escreve de maneira sucinta as causas de ter começado a estudar tudo de forma tão clara e objetiva visando o fácil acesso à educação e ao saber. Além disso justifica o fato de o livro ter sido escrito em francês ao invés de latim. O autor escreve em francês porque ele quer atingir a parte menos abastada da população e poder ser bem julgado por todos, caso ele escrevesse em latim, pois por escrever em latim ficava claro que o texto era reservado aos intelectuais da sociedade, não a toda a população.

Conclusão

Do meu ponto de vista Descartes é o professor perfeito, pois ele aprecia adquirir conhecimento, os transcreve de forma clara e objetiva e não quer que nenhuma informação seja deixada de lado, por mais irrelevante que ela possa parecer, além do mais tenta atrelar tudo que conhece à vida, facilitando o aprendizado.

 

Paulo Henrique Dragoni

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6 pensamentos sobre “O Discurso do Método

  1. Urso! disse:

    Poxa, excelente resumo! Que tal agora voce fazer uma série de Trips suas, as mais perfeitas PHilosofadas, espelhando-se no método cartesiano descaradamente, ou, seja, colocando temas atuais seus dentro destar perspectivas? Continue com este blog… demais!

    • PH Dragoni disse:

      Opa, fico contente que o resumo tenha ficado bom!

      Logo que eu comecei a ler a rápida biografia do Descartes eu já me achei bem parecido com ele no jeito de pensar e de raciocinar, modéstia a parte, apesar de algumas crises minhas, eu sempre segui os 4 princípios para constituir uma boa vida sem nem saber da existência deles, então acho que, meio sem querer, eu já faço minhas análises “cartesianas”.

      De agora em diante eu tentarei me referir mais vezes ao livro ou ao autor, mas não ficarei somente nele. Já peguei alguns livros de filosofia para ler nas férias e também comprei um do Sartre para ler algum dia, quem sabe não faço novas análises com melhores argumentos, não?

      Valeu pelo comentário! Abraço!

  2. jkviana disse:

    òtimo resumo .. cai aqui por acaso … infelizmente não segui a dica, acabei de ler sóbrio … das próximas visitas visões serão inevitáveis.

    Continue com o blog …

  3. gelindo uissiquesse disse:

    OPTIMO RESUMO, GOSTEI A ANALISE FEITA EM TORNO DO LIVRO O DESCURSO DO METODO

  4. Estácio Sá disse:

    muito bom seu resumo, deu vontade de ler o livro, sinto que com esse resumo , ao ler o livro terei um entendimento maior do que ele passa. Obrigado

  5. Josias disse:

    Muito legal este texto aqui! Bem escrito e bastante completo!

    Dê uma olhada no texto que escrevi sobre Descartes, um texto discontraído e com linguagem informal:

    http://nerdwiki.com/2014/01/12/o-discurso-do-metodo-rene-descartes/

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