Quando a esperança deve morrer

Estou lendo um livro do Robert Crais chamado Réquiem em Los Angeles. É um romance policial que conta a história do detetive Elvis Cole e sua busca pelo assassino da ex-namorada de seu parceiro e amigo Joe Pike. Durante um dos capítulos li a frase Nada melhor que a morte para estancar uma conversa e fiquei com ela na cabeça, pensando em como ela é verdadeira, tanto em seu sentido denotativo quando em seu sentido conotativo.

No livro, a frase se aplica quando Elvis Cole e sua namorada estão conversando sobre a ex-namorada de Joe Pike e este invade a sala dizendo que teria que ficar de fora pois não se dava bem com o DPLA (departamento de polícia de LA). Lucy pergunta então a causa disso e Joe responde que foi porque ele matou seu ex-parceiro; e a conversa simplesmente acaba, assim como o capítulo 6 do romance. (Antes que alguém venha brigar comigo, essa parte do livro não é spoiler.)

A morte, obviamente, é o fim. Assim, no parágrafo anterior, ela matou a conversa. A morte não necessariamente é a ausência de vida, ou o fim dela, mas, em minha opinião, é o fim de qualquer coisa.

Depois de ter lido a frase fiquei com ela na cabeça, como já disse. Passei a pensar em como a morte é boa quando se aplica conotativamente, porque por mais cruel que seja, acaba com a dor e o sofrimento, se é que ele existe.

Conversando com uma pessoa qualquer podemos tentar acabar com o assunto ou seguir andando com nossa vida sem ter que continuar falando com ela, isso se aplica facilmente a conversas cara a cara, conversas no telefone e na internet. Conversando com alguém que você não quer, você não vai simplesmente falar para esperar, pois depois disso terá que continuar a conversa, então o melhor jeito é terminar de vez, falar que está atrasado, ou simplesmente que não quer falar daquele assunto. É simples. Mas não darei importância a isso porque não é minha intenção dar dicas para terminar conversas com pessoas chatas.

O que eu realmente pensei foi quanto a matar uma amizade ou uma paixão.

Se você tem uma amizade (amizade no sentido de qualquer relação entre duas pessoas, não uma amizade verdadeira, como já bem descrevi num texto anterior) e não quer mais saber dela, sabe do que eu estou falando quando dá vontade de simplesmente acabar com a relação, como se nada tivesse acontecido. E para parar com todo esse sacrifício, a melhor forma é com a o fim definitivo desse relacionamento, seja pela morte desse “amigo” ou por alguma outra ação que não seja necessariamente a morte; a traição ou a distância são boas alternativas para “matar” a amizade.

Como algumas relações consistem de algo mais além que a amizade, a “morte” pode não ser a alternativa mais bem vinda apesar de ser a mais apropriada, principalmente quando esse “algo mais” não é recíproco e a dor é inevitável. Não é fácil deixar de gostar de alguém. “Nada melhor que a morte para estancar uma conversa”, por que essa “conversa” pode ser uma paixão não correspondida, basta pensar um pouco mais. Ninguém aprecia gostar de alguém e não ser correspondido, e enquanto há esperanças nem se chega a pensar em deixar de gostar dessa pessoa. Só que como todos nós sabemos, não dá para ficar atrás de uma pessoa para sempre, é necessário desencanar, seguir em frente, viver a vida. É esse “desencanar” que eu chamo de morte. E o “estancar uma conversa” é o deixar de “sofrer” por causa desse sentimento não recíproco.

E a morte desse sentimento não é culpa da velhice, mas sim de nossas mentes “assassinas” e/ou de fatores externos que acabam com todo isso que sentimos. Apesar de dizer isso, creio que a morte dessa conversa (sentimento) coincide com a morte da esperança em ter essa pessoa para você. E pensando bem, não só a pessoa, mas uma aspiração profissional se encaixa muito bem no contexto da análise conotativa da frase. Quando surge a ideia de você se tornar alguém mais importante e surge a esperança em isso ser executado, a “conversa” se inicia e, para que ela termine, só com a realização ou a morte da esperança. O problema, caro leitor, é que a maldita esperança é a última que morre.

Portanto, penso agora – viajando mais do que antes – que a “conversa” na verdade não é a “paixão” (nesse contexto), mas sim a esperança de que a paixão será retribuída algum dia de alguma forma. E não só a paixão, mas tudo na nossa vida. É que eu não quero me prolongar tanto, mas a esperança de ser promovido num emprego, de ganhar na loteria, de um parente se curar de uma doença.Em palavras mais gerais:

A esperança de um futuro bom, independente do campo a que se atribui esse futuro, deve ser assassinado quando passa a te prejudicar; só com a morte da esperança que podemos abrir os olhos e enxergar o que fizemos certo e o que fizemos errado para então agir da forma que nos parecer mais correta.

Como dito por Tyler Durden no filme Fight Club: Somente depois que perdermos tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa.

E esse “qualquer coisa” é gostar de outra pessoa, superar a antiga e partir para outra aventura passional que sabe lá onde irá terminar.

É, caro leitor, a morte é a melhor forma de acabar com algo, mesmo que não seja a morte literal. O fim é trágico mas é apenas um sinal de que uma fase acabou e você está pronto para outra. Vamos evoluir.

PS.: Recomendo o livro e o filme.

Paulo Henrique Dragoni

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4 pensamentos sobre “Quando a esperança deve morrer

  1. Esse texto era tudo que eu precisava ler neste momento.

    parabéns PH!

  2. david disse:

    A primeira vista eu quis falar sobre uma história em quadrinhos que estou lendo ” The Walking Dead” e que explora magnificamente o relacionamento humano diante de morte. É mais ou menos um reality show num mundo infestado por zumbis.
    Mas mudei de idéia quando cheguei no final do seu texto e vi a seguinte frase: “A esperança de um futuro bom, independente do campo a que se atribui esse futuro, deve ser assassinado quando passa a te prejudicar”.

    Num outro livro que estou lendo “Comer Amar Rezar”, encontrei hoje uma referência a história de São Francisco de Assis e acho que se aplica mais sabiamente ao seu escrito do que “The Walking Dead”.
    Ele, São Francisco, antes da conversão à vida religiosa, era filho do mais rico comerciante da cidade de Assis, Itália. Quando decidiu seguir o caminho de Deus, encontrou o empecilho de seus parentes, os quais espervam que Francisco continuasse os negócios da família.
    Empenhado em seus propósitos, o fututro santo entendeu que precisava atuar de forma radical e provar aos seus consaguíneos que ele havia planejado outro futuro para si. Ele precisava assassinar sua vida antiga de alguma forma se quisesse “nascer” para a nova.
    Então pegou todas as sua roupas, todo o dinheiro que tinha, todos os móveis que haviam em seu quarto e queimou em praça pública. Assim toda Assis pensaria que ele era louco e possívelemte sua família também. Deste modo o impediriam de tomar conta dos negócios da família com medo de que ele fizesse o mesmo com todo o resto.
    E assim Francisco abandonou seu lar e foi em busca da sabedoria sem nem as roupas do corpo, pois seriam resquícios da vida passada que ele matara.

    Eu não sei se o que você escreveu é inteiramente de sua reflexão ou está permeado por idéias externas. Mas acho interessante, de qualquer forma, que você chegue à mesma conclusão que outro homem chegou há mil anos atrás.

    Me parece que a sabedoria do espírito possui uma continuidade histórica. Ela sempre existiu no coração do homem mas nunca inteiramente manifesta, cabendo às gerações que se sucedem explicitá-la para aqueles que se entem atraídos.

  3. Lívia disse:

    Nossa,ótima dica!

    Valeu!

    Beijinhos***

  4. Mika disse:

    É difícil mesmo assim, é fácil falar mas difícil matar certos sentimentos e vontades. Certos quereres e sonhos. Bom mesmo, é nunca ter que precisar matar nenhum deles… pelo menos aqueles que são os maiores… eu ainda não sei me desapegar assim…

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