Capítulo 3 do Mal-Estar na Civilização, de Sigmund Freud

Faculdades de Campinas

Curso de Relações Internacionais

Artigo final para conclusão do curso de Laboratório de Análise de Pesquisas em Relações Internacionais – Estados Unidos

 

Fichamento do capítulo 3 do livro Mal-Estar na Civilização, de Sigmund Freud

 Paulo Henrique Barros Faria Dragoni Ferreira

200911104

 Campinas, junho de 2013.

 

  

Mal-estar na civilização, capítulo 3.

Já no início do capítulo Sigmund Freud cita e explica quais as fontes de nosso sofrimento. São elas: poder superior da natureza; fragilidade de nossos próprios corpos; e a inadequação  das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, na sociedade e no Estado[1].

Frente às duas primeiras fontes de nosso sofrimento, pouco nós podemos fazer, pois fogem do nosso domínio. Não temos controle sobre nosso organismo e nem sobre a natureza. Mas a terceira fonte do nosso sofrimento pode ser controlada por nós, pois diz respeito às relações sociais.

A civilização, que ele vem a citar em seguida, e é tema principal do livro, consiste nas regras impostas pela sociedade para que o ser humano esteja protegido da natureza (inclusive seus instintos) e para regrar as relações entre os seres humanos. Essa imposição de costumes e regras gera o mal estar no ser humano.

Como não “aceitamos” estarmos errados com algo que temos total controle, no caso as regras para se viver em sociedade, ou seja, a civilidade, Freud sugere que para sermos felizes, ou ao menos evitar nosso sofrimento, devemos abandonar a civilização e suas regras. Essa civilização também pode ser a solução para essa mesma fonte de sofrimento, pois é dela que vem nossa percepção para nos protegermos de todas as fontes de sofrimento[2].

Os seres humanos então vivem num mal-estar com essa civilização, pois ela reprime os impulsos da natureza humana em prol do bem estar da civilização, acabando com o bem-estar do ser humano e criando seres infelizes e de sofrimento. Portanto, para o ser humano evitar o sofrimento ele deve romper com os traços de civilidade e da civilização, ou seja, a realidade, consequentemente, enlouquecendo.

A seguir, Freud busca descobrir a origem de tanto mal estar e revolta para com a civilização. Remontando, de forma superficial, as origens dessa hostilidade, o autor remete o mal estar às ações cristãs frente a toda cultura pagã existente e à ideia de que a cultura europeia era a correta quando se depararam com outros tipos de sociedade. Dessa forma a imposição cristão-europeia causou mal estar em quem não seguia tais padrões e tiveram que se adaptar a essas regras para sobreviverem.

Como última ocasião, está a percepção das neuroses: “A última ocasião nos é especialmente familiar. Surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados. Descobriu-se que uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe a serviço de seus ideias culturais, inferindo-se disso que a abolição ou a redução dessas exigências resultaria num retorno a possibilidades de felicidade.”[3]

Há ainda um fator de desapontamento que se relaciona com o progresso cientifico. Este progresso fez com que os seres humanos tivessem maior poder sobre a natureza, mas em nada adiantou para que se sentissem mais felizes, gerando mais frustração. Por outro lado, o progresso científico nos facilitou atingir felicidades como conversar com um ente querido. O problema é que na visão de um pessimista, como Freud, cabe sua reflexão: “Enfim, de que nos vale uma vida longe se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheia de desgraças que só a morte é por nós recebida como uma libertação?”[4].

Apesar dessas afirmações, é difícil avaliar o desconforto de homens de sociedades anteriores perante a civilização em que estavam inseridos. Mesmo que tendamos a nos colocar no lugar do outro para “sentirmos” como ele se sente, é extremamente subjetivo, pois não consideramos a história e o sentimento desse outro. É como se simplesmente nos jogássemos naquela situação e déssemos nosso parecer como donos da verdade, o problema é que não há como medir a felicidade de cada um devido à subjetividade em que a felicidade está intrínseca.

Como a civilização tange o entendimento de “se proteger da natureza”, o ser humano buscou ampliar suas percepções e suas forças. A primeira prova disso foi o controle do fogo e a construção de habitações, como citado por Freud na página 42. A utilização de instrumentos que ampliassem suas defesas e seus ataques, como em caçadas e batalhas, também são marcos desse primeiro passo de civilização.

Com isso conclui-se que países que conquistaram maior nível de civilização foram os que usufruíram melhor do conhecimento para elaboração de melhores instrumentos (lentes, navios, armas, entre outros) e uso da terra. Obviamente, de início, era algo pequeno e restrito a apenas alguns seres humanos, e, depois de muito avanço, para outros seres humanos e futuramente a toda a sociedade em que ele está inserido.

Esses avanços tecnológicos fizeram com que o homem se tornasse um “Deus da Prótese”[5], pois seu anseio por estar próximo ao conceito de Deus, em ser onipotente e onisciente, o incentivou a fazer tais anseios para ter maior controle sobre a natureza e seu organismo, ampliando seus horizontes e buscando evitar o sofrimento, logo, tentando atingir a felicidade.

Há também um desejo pela ordem, fruto do ambiente de civilização em que o homem está inserido. Esse desejo pela ordem reflete na organização e no anseio por beleza, forçando o homem a repetir tudo que é bem visto e aceito pela sociedade e suas regras, trazendo benefícios como tentar tirar o melhor proveito do espaço e do tempo, conservando ao mesmo tempo as forças psíquicas deles[6].

“Evidentemente, a beleza, a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as exigências da civilização”[7]. Mas mesmo que não sejam tão importantes ou necessárias quanto o controle das forças da natureza e a ampliação de seu corpo não se podem colocar esses aspectos em nível inferior, pois é um interesse da civilização. Por outro lado percebe-se também grande anseio pelo incentivo das capacidades mentais do homem, como as relações intelectuais, artísticas e científicas, que funcionam também como momentos de felicidade quando realizadas. Esse anseio é impulsionado também pela religião, que força os homens a buscarem a perfeição por meio de seus ideais.

Por fim Sigmund Freud avalia o último aspecto da civilização, que é o convívio em grupo; as relações sociais e suas regras – “relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo, como fonte de auxílio, como objeto sexual de outra pessoa, como membro de uma família e de um Estado.”[8]. O problema existente nisso parte da necessidade de regular as relações sociais, o que gera insatisfação naqueles que discordam e que se sintam mais fracos no decorrer das imposições dos mais fortes. Mais fortes aqueles que, unidos num grupo, iniciam o convívio em sociedade e submetem os isolados, criando a noção de “direito”.

É esse o passo decisivo para a civilização: “a substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade”[9]. A partir disso cria-se o conceito de justiça (lei), que basicamente significa o direito da comunidade em detrimento do direito do indivíduo. Resultando, finalmente, num estatuto em que todos sacrificariam parte de seus direitos e instintos pelo direito e manutenção da sociedade.

Consequentemente, conflitos diversos tiveram sua gênese na necessidade de encontrar uma acomodação geral e única. Um grupo, com um tipo de estatuto, entra em conflito com outro grupo, com diferente estatuto, pois um quer “converter” o outro para seu modo de vida, assim como faziam quando encontravam indivíduos isolados ou pequenos grupos. Mas ao encontro de dois grupos grandes de pessoas nos “resta saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma especifica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável”[10].

A seguir, Freud faz a ligação entre a formação libidinal do indivíduo e o processo civilizatório[11]. Em ambos os casos o instinto humano é reprimido e depois sublimado, fruto do desenvolvimento cultural[12]. Tal desenvolvimento cultural leva os homens a buscar a civilização por meio de atividades psíquicas, artísticas e científicas.

Por fim, contudo, “é impossível desprezar até qual ponto a civilização é construída sobre uma renúncia do instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a não satisfação de instintos poderosos. Essa “frustração cultural” domina o grande campo dos relacionamentos sociais entre os seres humanos.”[13]. Essa sublimação de instintos só é compreendida, então, se não há um ganho economicamente viável, pois, caso contrário, as neuroses farão com que o ser humano tenha problemas em aceitar tal condição e enlouquecerá, levando-o a fugir da civilização.

Referência bibliográfica

FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997. 112 p.

FREUD, Sigmund. Capítulo 3. In: FREUD, Sigmund. Mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997. Cap. 3, p. 37-52.


[1] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 37

[2] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 38

[3] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 39

[4] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 40

[5] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 44

[6] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 46 e 47

[7] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 47

[8] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 48

[9] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 49

[10] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 50

[11] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 51

[12] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 52

[13] Sigmund Freud, Mal-Estar na Civilização (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: Imago Ed. 1997), 52

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